Diversão, arte, literatura, psicologia, e muito mais

domingo, 1 de maio de 2011

Admonitions to a Special Person - Anne Sexton

Watch out for power,

for its avalanche can bury you,

snow, snow, snow, smothering your mountain.

Watch out for hate,

it can open its mouth and you'll fling yourself out

to eat off your leg, an instant leper.

Watch out for friends,

because when you betray them,

as you will,

they will bury their heads in the toilet

and flush themselves away.

Watch out for intellect,

because it knows so much it knows nothing

and leaves you hanging upside down,

mouthing knowledge as your heart

falls out of your mouth.

Watch out for games, the actor's part,

the speech planned, known, given,

for they will give you away

and you will stand like a naked little boy,

pissing on your own child-bed.

Watch out for love

(unless it is true,

and every part of you says yes including the toes) ,

it will wrap you up like a mummy,

and your scream won't be heard

and none of your running will end.

Love? Be it man. Be it woman.

It must be a wave you want to glide in on,

give your body to it, give your laugh to it,

give, when the gravelly sand takes you,

your tears to the land. To love another is something

like prayer and can't be planned, you just fall

into its arms because your belief undoes your disbelief.

Special person,

if I were you I'd pay no attention

to admonitions from me,

made somewhat out of your words

and somewhat out of mine.

A collaboration.

I do not believe a word I have said,

except some, except I think of you like a young tree

with pasted-on leaves and know you'll root

and the real green thing will come.

Let go. Let go.

Oh special person,

possible leaves,

this typewriter likes you on the way to them,

but wants to break crystal glasses

in celebration,

for you,

when the dark crust is thrown off

and you float all around

like a happened balloon.

Anne Sexton (1928-1972), poeta americana

quarta-feira, 20 de abril de 2011

M. C. Escher, o artista do impossível


O trabalho de Escher sempre me encantou muito. Então, desde que soube que uma exposição de suas obras viria para o Brasil, no final do ano passado, estava ansiosa para que ela chegasse ao Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. Estive lá hoje, e fiquei ainda mais impressionada. Se as reproduções das obras em livros ou na internet já me intrigavam, ver os originais me deixou literalmente boquiaberta e emocionada. Tudo bem, sempre fico emocionada de ver originais, para mim é um privilégio poder ver o trabalho de um artista bem de perto e imaginar como deve ter sido o processo de criação, me sinto mais próxima deles assim. No caso de Escher, mais do que isso, imaginar como ele conseguiu criar algo tão maravilhoso. Seu domínio da geometria e da perspectiva é total, a ponto de ele conseguir manipular as imagens para que, num mesmo desenho, várias perspectivas de um mesmo objeto se revelem. Aliás, revelar é uma palavra bem adequada, já que as obras nunca são apreendidas em um primeiro contato. Há que ver com atenção, que deixar os olhos passearem e a imaginação trabalhar. Escher nos instiga a pensar no infinito, nos múltiplos perfis que, aos poucos, se desvelam ao nosso olhar atento; ele nos estimula a raciocinar em termos de polaridades: peixes que se transformam em pássaros, anjos, em demônios... Perplexidade e admiração: duas palavras que definem bem o que sinto após ter visitado a exposição. Não deixe de ver as animações exibidas em totens no subsolo.

O Mundo Mágico de M.C. Escher. Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo. Até 17 de julho de 2011.

Para saber mais: http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/seminario/escher (em português)
http://www.mcescher.com (em inglês)

domingo, 17 de abril de 2011

Paula Rêgo e o feminino muito além dos contos de fada

Snow White Swallows the Poison Apple (1995)

Visitei hoje a exposição das obras de Paula Rêgo na Pinacoteca do Estado de São Paulo, e ainda estou sob o impacto do que vi. Paula Rêgo, nascida em 1935 em Lisboa, vive desde a década de 1970 em Londres, e está entre os quatro maiores pintores vivos da Inglaterra. Na verdade, eu tinha me esquecido dessa exposição, e fui até a Pinacoteca porque estava lá por perto, aguardando alguns shows que aconteceram durante a Virada Cultural. Acho que o fato de eu não estar preparada para o que veria intensificou a impressão causada em mim pelas obras. A primeira coisa que registrei foi a influência de Lucien Freud, (http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/freud/) mas ao observar as pinturas, outras se revelaram, Hieronymus Bosch http://www.ibiblio.org/wm/paint/auth/bosch/) sendo uma das mais evidentes. A minha ignorância sobre o trabalho de Paula Rêgo era total. Algo que me chamou a atenção de pronto foi a técnica perfeita e o uso das cores. Mas os temas trouxeram estranhamento, me desafiaram a refletir. Quem são essas Brancas de Neve maduras, essas bailarinas/avestruzes envelhecidas, essas adolescentes sinistras, presentes em contos de fada sem finais felizes? Quem é essa mulher corajosa, que transforma um tema espinhoso como o aborto em beleza? Estou impressionada, completamente submetida ao impacto das imagens que vi. Ainda não consegui elaborar nada, não sei se conseguirei fazê-lo, mas isso não importa. É muito bom (e raro, infelizmente), que uma exposição me conceda uma experiência tão transcendente. Vou voltar, certamente.

Paula Rêgo na Pinacoteca de São Paulo, de 19 de março a 5 de junho de 2011.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Manuais de Instrução são para os Fracos

Você compra um celular novo, ou um computador, ou uma tranqueira eletrônica qualquer, não importa. A primeira coisa que faz é ler o manual, certo? Errado. Por que nada substitui A experiência, que começa mesmo antes da compra. Antes vem o encantamento - você está lendo uma revista, olhando uma vitrine, visitando um amigo, de repente bate os olhos na coisa e pensa: é isso o que eu quero pra mim! Ou porque ela é justamente o que você estava precisando, ou porque você achou aquilo simplesmente lindo, ou porque você precisa preencher um vazio que nem você sabia que tinha, os motivos são vários e não vêm ao caso. Ai, pesquisa, olha preços, namora de longe, consulta os amigos, faz contas, desiste, pesquisa de novo, resolve que vale a pena, decide que é isso mesmo que você quer e... Pronto, a coisa desejada se torna sua. Agora que você tem o objeto tão sonhado nas mãos, vai perder tempo lendo manuais? Você quer mais é ligar o bichinho, ver ele se acender ao seu toque, descobrir os seus mistérios, aprender até onde você pode chegar. Pesquisadores levaram anos desenvolvendo interfaces intuitivas para que você não tenha que interromper a experiência para ler manuais de instrução. E então você fica entusiasmado ao descobrir que o seu novo celular tem um recurso que você nunca havia imaginado que ele tivesse - faz fotos panorâmicas, por exemplo.

Se isso acontece na nossa relação com esses aparelhos que vêm prontos de fábrica, com seus recursos limitados, imagine então o que acontece quando o objeto em questão é humano. Gente não vem pronta, gente vai se fazendo com o tempo, vai ganhando novos recursos, vai ampliando fronteiras... As pessoas ainda não foram terminadas, elas estão sempre mudando, já escreveu o meu querido Guimarães Rosa. Como criar um manual de instruções pra algo que você não sabe aonde pode chegar? E, mesmo que isso fosse possível, qual seria a graça?

quinta-feira, 10 de março de 2011

Como diferenciar uma obra-prima de uma pintura feita por um macaco

Jack Pezanosky, 4 anos


Elizabeth Haggarty (Toronto Star)

Publicado em 08 março 2011 (Trad Angelica Rente. Original disponível em http://www.thestar.com/news/world/article/950518--how-to-tell-a-masterpiece-from-a-painting-by-a-monkey?bn=1)

Não, o seu macaco de estimação não poderia ter pintado aquele Pollock.

E se você planeja visitar a exposição Expressionismo Abstrato no AGO (Art Gallery of Ontario) neste verão, pode ficar sossegado: o seu filho de quatro anos com um pincel não chegará perto do Willem de Kooning pendurado à sua frente.

Uma pesquisa de Angelina Hawley-Dolan e Ellen Winner, do Departamento de Psicologia do Boston College, sugere que mesmo olhos destreinados são capazes de distinguir entre pinturas feitas por artistas expressionistas abstratos e trabalhos similares feitos por macacos, elefantes e crianças.

“Eu estava conversando com a minha orientadora sobre a opinião comum a grande parte das pessoas de que as obras expressionistas abstratas poderiam ter sido pintadas por uma criança , e que elas não envolvem habilidade, intencionalidade ou planejamento”, explicou Hawley-Dolan em uma entrevista para o Star.

As duas decidiram criar um teste para saber se isso é verdade.

O estudo comparou 30 pinturas de artistas consagrados com trabalhos de animais do zoológico e crianças.

“As pinturas foram combinadas nos quesitos linha, cor, pincelada e técnica”, explica Howley-Dolan. “Para formarem um par, cada imagem devia assemelhar-se à outra em dois desses aspectos”.

Por exemplo, Laburnum, do consagrado Hans Hofmann, formou par com os rabiscos de Jack Pezanosky, de quatro anos.

Estudantes universitários foram então convidados a julgar os pares com base em qual dos trabalhos preferiam, e qual deles achavam ter sido feito por um profissional.

Inicialmente, foram mostradas pinturas com as assinaturas dos artistas removidas a 32 estudantes de arte e 40 de psicologia. Em seguida, eles observaram pinturas identificadas incorretamente como tendo sido pintadas por um artista ou por um animal exótico. Mais tarde, as pinturas tiveram seus autores identificados corretamente.

Em todos os casos, mais de 60% dos estudantes foram capazes de escolher as pinturas feitas por profissionais, independentemente dos seus estudos serem focados na área de artes.

“Os estudantes de arte não foram de maneira alguma afetados pelas etiquetas”, disse Hawley-Dolan. “Quanto aos outros estudantes, não tiveram suas preferências afetadas pelas etiquetas, mas seu julgamento, sim”.

Quando as obras eram identificadas corretamente, os estudantes de psicologia, na maior parte das vezes, tendiam a dizer que as obras haviam sido pintadas por um profissional.

Porém, quando as pinturas estavam identificadas erroneamente – por exemplo, se uma obra de Mark Rothko fosse creditada a um elefante – os estudantes não se deixaram enganar. Eles ainda escolheram o profissional, mais ou menos na mesma proporção de quando as pinturas não estavam identificadas.

Também houve uma discrepância no que se refere às obras preferidas pelos estudantes. As obras escolhidas pelos estudantes de arte como tendo sido feitas por profissionais apresentaram alta correlação com aquelas que eles preferiam. Quando apresentados aos trabalhos identificados corretamente, contudo, 79% dos estudantes de psicologia os descreveram como obras de profissionais, enquanto que apenas 58% disseram preferir as pinturas feitas por artistas.

Então, como identificar obras de profissionais, quando tanto macacos quanto artistas criaram algo que se parece com rabiscos em uma folha de papel?

“Em relação ao julgamento, ao observar as imagens criadas por artistas, tanto os estudantes de arte quanto os de psicologia falaram mais sobre intenção, sobre como ‘essa pincelada parece ter sido mais planejada’”, declarou Howley-Dolan. “Eles falaram sobre cores e sobre como o executor planejou a disposição das mesmas. Eles se referiram a... ver a mente além da arte”.

O estudo sugere que o que diferencia um pintor profissional de um animal ou de uma criança é a habilidade do observador de ver o pensamento que se tornou pintura. Mas isso não significa que nós preferimos os seus trabalhos.

E, como Hawley-Dolan aponta, “Podemos olhar para esse estudo como para um copo meio cheio ou meio vazio. É difícil distinguir o trabalho de uma criança do de um artista profissional (os participantes do estudo erraram, em média, em 40% das vezes). É isso que a maioria das pessoas diz com freqüência, e em parte das vezes isso é verdade”.

sábado, 17 de julho de 2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Hai Kai



De que árvore florida
chega? Não sei.
Mas é seu perfume...
Matsuo Bashô

Hai kai (ou haiku) é uma forma poética tradicional do Japão. Ela se baseia nos preceitos do zen-budismo, e procura registrar, de maneira muito sintética, a impressão de um momento. O hai kai tradicional se desenvolve em três linhas, sendo que a primeira tem cinco sílabas (poéticas ou não) a segunda, sete, e a terceira, outras cinco. O uso de metáforas é evitado, e apresenta-se um evento em particular que ocorre no aqui-e-agora, fazendo referências constantes à fenômenos da natureza, em especial as estações do ano.

Dá para perceber que tudo isso tem muita relação com a Gestalt-terapia e com a Fenomenologia, não é? Então, como admiro e estudo essas abordagens, assim como a cultura japonesa, tentei escrever alguns hai kais, que estou postando aqui. Espero estar no caminho certo. Em português não há a exigência tão rígida da contagem das sílabas, mas eu procurei respeitá-la, ou pelo menos ficar o mais próximo possível.



Branco, preto, gesto
A arte se revela entre
olho, mão, papel.


Garoa fina.
No tronco da velha árvore
Acorda a orquídea.


Vento forte
No pomar das cerejeiras:
Chuva rosada.

Epifania

Escrevi esse poema buscando expressar meus sentimentos em relação à minha primeira aula de Aikidô. Bueno sensei me honrou muito ao aceitá-lo como presente pelos 16 anos do Dojô Harmonia. Já o tinha postado como comentário no blog do Bueno e no Facebook, mas não aqui. Então, ai vai:

Primeiro, reverenciar o vazio. O vazio?
De repente, uma epifania: tudo o que estudei até agora, tudo aquilo no que acredito
Condensado, em um momento de silêncio
Encarando o vazio
Espaço prenhe de possibilidades, onde nada ainda existe
Mas que contém a semente de tudo que pode existir
Pela ação daquele que contempla
E compreendi então porque espada e pincel se complementam
E porque tudo o que existe está no aqui e no agora
Tudo se inicia no entre coisas
Entre meu olho e o papel
Entre eu e o outro que, ao colocar o seu corpo a meu dispor
Ensina-me o que fazer com o meu próprio corpo
Domo arigato gozaimashita!
Aikidô
Danças Circulares Sagradas
Pintura
Gestalt terapia
São modos de aprender a ser
E de apreender a inteireza do mundo
Na relação com o outro
Pois só existem na relação
Não se pratica aikidô sozinho
Assim como não é possível dançar em roda solitariamente
Minha pintura só existe porque há alguém que a vê
Psicologia só se faz porque o outro existe
E porque existe o vazio
Cheio de nada e de potência.

29 abr 2010

terça-feira, 4 de maio de 2010

Déjà vu

Hoje, preparando o jantar (algo que não fazia a muito tempo, infelizmente), tive uma sensação completamente proustiana, um déjà vu, uma memória encarnada. Minha madeleine foi um ovo cozido.
Descascando um ovo, lembrei subitamente de minha tia, irmã da minha mãe, e de como quando eu era criança adorava passar os primeiros dias das férias, junto com o primo Paulo, na casa onde ela morava junto com a minha avó. Esperávamos a avó dormir e passávamos divertidíssimas noites em claro, assistindo filmes de terror e comendo ovos cozidos as três da manhã. Tudo aquilo que era proibido em casa. Tia Terry era uma feiticeira do bem que me ensinou muitas coisas, entre elas que existem mistérios ocultos e como dar os primeiros passos na transgressão...
E comecei a lembrar de minhas outras tias, e de como a minha infância foi povoada de mulheres. Minha mãe tinha quatro irmãs. Ela, assim como duas de minhas tias, tristemente nos deixaram muito cedo. Mas tenho lindas memórias de uma casa repleta de belas mulheres um tanto maluquinhas, inteligentes, interessantes, que, por força da cultura machista e de um pai linha dura, nunca puderam explorar plenamente suas potencialidades. Fico imaginando que hoje, se elas estivessem vivas, eu estaria cercada por velhas perigosas, como definidas por Clarissa Pinkola Estés: sábias, amorosas, acolhedoras, inconformistas, sem medo de manifestar sua força feminina e de ser quem realmente são. Agora, sentada aqui em meu atelier, cercada por uma coleção um tanto idiossicrática de livros, ouvindo músicas que talvez pouquíssimas pessoas ouçam, rodeada pelas minhas pinturas, na companhia da Catarina, nossa negra gata residente, percebo que, de certa forma, realizo em mim as potencialidades adormecidas nessas mulheres que me fizeram quem sou. Felizmente descobri o caminho para me tornar também uma velha perigosa.
A idade trás algumas vantagens com ela. A possibilidade de dizer o que se pensa e de agir como se quer são algumas delas. Porque a idade trás também a sabedoria para saber que palavras são poderosas, e que o exemplo pela ação é o que realmente educa. E é essa sabedoria que também permite que saibamos quais as palavras que podem ser ditas e que pode ser feito.

domingo, 2 de maio de 2010

Alice no Pais da Maravilhas: o filme.


Então, me animei e fui assistir ao filme, com o Pedro e a Bruna, meus companheiros de cinema. Assistimos na versão 2D, não curto muito filmes em 3D.
Como em todos os filmes do Tim Burton o visual é demais! Cenários, figurinos, maquiagens, tudo é muito exuberante e, as vezes, sinistro. A cara dele. Em alguns momentos fiquei imaginando a atração da Disney que poderá ter origem no filme.
Porém (tudo tem um porém), pra quem leu Alice quando era criança e adorou, acho que a opção de modificar a história para que a personagem principal tenha 19 anos não foi tão acertada. Quero dizer, tem momentos em que o comportamento dela é tolinho demais pra quem tem 19 anos, mesmo que no início do século passado. Além disso, a atriz escolhida é de uma inexpressividade que chega a ser constrangedora, em alguns momentos. O diretor também fez uma opção fácil ao querer contar uma história que fizesse sentido. Quem leu os livros, tanto Alice no País das Maravilhas quanto no País do Espelho sabe que a narrativa é totalmente nonsense, e é isso que faz dela algo tão especial.
Como sempre, o melhor figurino é do Johnny Depp, e a melhor atuação também. Como você já deve ter percebido pela foto acima, meu personagem preferido é o Gato de Cheshire, simpaticíssimo, que, aliás, tem um papel muito mais importante no livro. Uma das falas dele é impagável, quando diz a Alice que, já que ela não sabe para onde quer ir, não importa o caminho que tome.
No geral, o filme é bom, mas eu não levaria meus sobrinhos de 10 anos pra assistir...






quinta-feira, 18 de março de 2010

Mandalas


Original por Cathy Malchiodi, disponível em http://www.psychologytoday.com/blog/the-healing-arts/201003/cool-art-therapy-intervention-6-mandala-drawing
Tradução: Maria Angelica Rente Basso


Nós, humanos, sempre tivemos fascinação pelo círculo. Temos contato com ele através da natureza – na espiral da Via Láctea, nas órbitas dos planetas, e nos ciclos da vida em si. Quando crianças, descobrimos que poderíamos usar lápis de cor pra fazer formas circulares no papel; é um estágio universal do desenvolvimento artístico que toda criança normal no mundo vivencia. De fato, é o primeiro grande marco na produção de imagens e, por isso, o desenho infantil de um círculo pode ser uma das mais primitivas representações do self.
Costumamos nos referir às formas circulares como mandalas, palavra em sânscrito que significa “círculo sagrado”. Por milhares de anos a criação de desenhos circulares, frequentemente geométricos, tem feito parte de práticas espirituais ao redor do mundo e quase todas as culturas reverenciaram o poder do círculo. As culturas orientais utilizam mandalas específicas para meditação há muitos séculos; a mandala budista tibetana Kalachakra, também conhecida como Roda do Tempo, é provavelmente uma das mais famosas, e ilustra simbolicamente a estrutura inteira do universo. Formas circulares também são encontradas no monumento pré-histórico de Stonehenge , na Inglaterra, e no labirinto de século 13 que se encontra no chão da Catedral de Chartres, na França. Pessoas no caminho da espiritualidade sempre criaram mandalas para entrar em contato com o sagrado através de imagens, e evocaram o círculo em rituais e na produção de arte com o propósito de transcendência, completude e bem estar.
Carl Gustav Jung introduziu o conceito das mandalas na cultura ocidental, e acreditava que esse símbolo representa a personalidade total, ou seja, o Self. Jung observou a criação espontânea de mandalas em seus pacientes e em sua própria experiência pessoal, e notou que a aparição súbita destas figuras em sonhos ou em forma de arte normalmente era um sinal de movimento em direção a um maior auto-conhecimento. De 1916 até 1920 Jung criou desenhos e pinturas de mandalas que sentia corresponderem à sua situação interior no momento da criação delas. Ele acreditava que as mandalas denotavam uma unificação dos opostos, serviam como expressão do self e representavam a somatória de quem nós somos.
A arteterapeuta Joan Kellogg passou grande parte de sua vida desenvolvendo um sistema de compreensão da sabedoria da mandala, que ela denominava de “Grande Círculo”. Em sua teoria sobre padrões, forma e cores em mandalas, Kellogg integrou parte das descobertas de Jung e sua própria pesquisa, que durou várias décadas. Em particular, ela afirmava que nossa atração por certas formas e configurações encontradas em mandalas dá indícios de nossas condições físicas, emocionais e espirituais em determinado momento. Kellogg também desenvolveu uma série de cartões, cada um com um desenho de mandala diferente, representando traços de caráter, relacionamento interpessoal, aspirações e o inconsciente, sempre mutáveis dentro do círculo da vida representado pela Grande Roda da Mandala.
Os conceitos de Kellogg deram origem a um sistema inteiro para análise de mandalas, com a finalidade de avaliar tudo, desde a personalidade de um indivíduo até sua saúde física Como psicóloga pesquisadora, não posso afirmar que existe pesquisa o suficiente para fundamentar a interpretação através do uso desta fórmula. A idéia de interpretar símbolos encontrados em mandalas intriga muitos arteterapeutas e analistas junguianos, que enxergam significados nas imagens. Mas, para mim, o poder evocativo e promotor de saúde da mandala significa muito mais do que apenas procurar símbolos. É, na verdade, o processo criativo de confecção de mandalas que nos auxilia a revisitar a experiência universal do círculo e, como Jung descobriu, nos auxilia a vivenciar e refletir sobre a essência do que somos no aqui e agora.
De acordo com Jung, as mandalas simbolizam “um refúgio seguro de reconciliação e inteireza interiores”. Elas têm o potencial de trazer à tona algo universal dentro de nós, talvez o proverbial arquétipo do Self. E, ao mesmo tempo, nos oferecem uma experiência do todo em meio ao caos da vida diária, tornando o “círculo sagrado” uma das intervenções arteterapêuticas mais válidas tanto para o conforto da alma quanto para o encontro com si mesmo.