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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Hai Kai



De que árvore florida
chega? Não sei.
Mas é seu perfume...
Matsuo Bashô

Hai kai (ou haiku) é uma forma poética tradicional do Japão. Ela se baseia nos preceitos do zen-budismo, e procura registrar, de maneira muito sintética, a impressão de um momento. O hai kai tradicional se desenvolve em três linhas, sendo que a primeira tem cinco sílabas (poéticas ou não) a segunda, sete, e a terceira, outras cinco. O uso de metáforas é evitado, e apresenta-se um evento em particular que ocorre no aqui-e-agora, fazendo referências constantes à fenômenos da natureza, em especial as estações do ano.

Dá para perceber que tudo isso tem muita relação com a Gestalt-terapia e com a Fenomenologia, não é? Então, como admiro e estudo essas abordagens, assim como a cultura japonesa, tentei escrever alguns hai kais, que estou postando aqui. Espero estar no caminho certo. Em português não há a exigência tão rígida da contagem das sílabas, mas eu procurei respeitá-la, ou pelo menos ficar o mais próximo possível.



Branco, preto, gesto
A arte se revela entre
olho, mão, papel.


Garoa fina.
No tronco da velha árvore
Acorda a orquídea.


Vento forte
No pomar das cerejeiras:
Chuva rosada.

Epifania

Escrevi esse poema buscando expressar meus sentimentos em relação à minha primeira aula de Aikidô. Bueno sensei me honrou muito ao aceitá-lo como presente pelos 16 anos do Dojô Harmonia. Já o tinha postado como comentário no blog do Bueno e no Facebook, mas não aqui. Então, ai vai:

Primeiro, reverenciar o vazio. O vazio?
De repente, uma epifania: tudo o que estudei até agora, tudo aquilo no que acredito
Condensado, em um momento de silêncio
Encarando o vazio
Espaço prenhe de possibilidades, onde nada ainda existe
Mas que contém a semente de tudo que pode existir
Pela ação daquele que contempla
E compreendi então porque espada e pincel se complementam
E porque tudo o que existe está no aqui e no agora
Tudo se inicia no entre coisas
Entre meu olho e o papel
Entre eu e o outro que, ao colocar o seu corpo a meu dispor
Ensina-me o que fazer com o meu próprio corpo
Domo arigato gozaimashita!
Aikidô
Danças Circulares Sagradas
Pintura
Gestalt terapia
São modos de aprender a ser
E de apreender a inteireza do mundo
Na relação com o outro
Pois só existem na relação
Não se pratica aikidô sozinho
Assim como não é possível dançar em roda solitariamente
Minha pintura só existe porque há alguém que a vê
Psicologia só se faz porque o outro existe
E porque existe o vazio
Cheio de nada e de potência.

29 abr 2010

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Motivo - Cecília Meireles


Motivo
Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Alberto Caeiro - Ficções do Interlúdio

O meu olhar azul como o céu
é calmo como a água ao sol.
É assim, azul e calmo,
porque não interroga nem se espanta...

Se eu interrogasse e me espantasse
não nasciam flores novas nos prados
nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo...
(Mesmo se nascessem flores novas no prado
e o sol mudasse para mais belo,
eu sentiria menos flores no prado
e achava mais feio o sol...
Porque tudo é como é e assim é que é,
eu aceito e nem agradeço,
para não parecer que penso nisso...)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Hanami

O vento sopra.
No pomar das cerejeiras
Chovem flores.



Bosque das Cerejeiras. Parque do Carmo, SP.
Hai-cai, fotos e edição: Angelica Rente

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Fernando Pessoa - O guardador de rebanhos

II - O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Libertação: Declaração Universal - Alejandro Spangenberg

Em ato unilateral e inconsulto declaro hoje a independência total do meu ser. De agora em diante, habitarei o território livre de meu espírito e assentarei as bases para a construção da República Separatista da Existência Digna. Livre, por fim, de toda a opressão, não importa onde eu esteja ou que nome tenha, minha luta e o sentido da minha vida estarão na libertação das crianças, na defesa implacável e inflexível da natureza e de tudo o que existe neste mundo maravilhoso.

Anarquista e amante me declaro, por isso não obedecerei a ninguém e não pedirei que me obedeçam. Minha cabeça inclina-se apenas diante da morte e do mistério infinito da vida. Minha humildade será a do guerreiro, nascida do respeito e do assombro perante a criação, nem maior e nem menor do que tudo o que existe. Não haverá poder humano que dobre minhas convicções, e na minha vida não haverá espaço para as concessões, salvo para aquelas ditadas pelo meu coração e escritas com a mão da ternura.

A meus filhos acalentarei com meus próprios braços e, quando estiverem prontos, os deixarei partir, livres como pássaros, voando em direção a seu destino.

Só, perante Deus, decreto e reivindico meu direito a ocupar um lugar entre os mistérios do Universo e, enquanto as forças incompreensíveis que regem o meu destino não determinarem o contrário, declaro que viverei minha vida com total intensidade, sem sujeitar-me ao pensamento alheio, nem às condicionantes da sociedade, durante o tempo em que me for dado viver.
Assumirei meu destino qualquer que ele seja, sem queixas nem renúncias, e ainda que nunca o consiga, lutarei com todas as minhas forças por merecer e não desperdiçar esta única e irrepetível oportunidade de estar vivo. Como sei que hei de morrer, qualquer que seja a forma de vida que escolha, hoje, com plena consciência, decido viver uma vida com significado, só por prazer e não porque espere qualquer recompensa.

De hoje em diante só acreditarei nos atos dos homens, e não em suas palavras. Meus inimigos são e serão os que lutam pela morte, aprisionam a imaginação, perseguem a beleza,acumulam riqueza, castigam as crianças, humilham os despossuídos e pisoteiam a verdade.

Saibam todos que hoje começou a Revolução.

Declaro que a partir de agora não me importarei em estar sozinho, e que aceitarei unicamente a companhia de quem ama a canção e o vinho,vive sem pedir permissão e está disposto a viver por suas convicções.

Por fim decreto e assumo meu direito irrenunciável de existir e de escolher quem sou, livre por fim de todas as identidades herdadas. Digo que meu lugar é o mundo; minha irmã, a liberdade; e que em todas as noites, sem o menor pudor, eu faço Amor.

Assim termino esta multitudinária assembléia unipessoal, porque cada homem que se liberta redime a toda humanidade. Motivo pelo qual, com absoluta falta de respeito, decidi desobedecer a todos os poderes e autoridades para converter-me em único condutor da minha vida.

Com toda a autoridade que emana deste ato, perante mim selo e firmo este compromisso.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Saudações a quem tem coragem

Pense e dance

Barão Vermelho

Composição: Dé / Frejat / Guto Goffi

Penso!
Como vai minha vida
Alimento todos os desejos
Exorciso as minhas fantasias
Todo mundo tem um pouco
De medo da vida...

Prá que perder tempo
Desperdiçando emoções
Grilar com pequenas provocações
Ataco, se isso for preciso
Sou eu quem escolho e faço
Os meus inimigos...

"Saudações, a quem tem coragem"
Aos que tão aqui
Prá qualquer viagem
Não fique esperando
A vida passar tão rápido
A felicidade
É um estado imaginário...

Não penso
Em tudo que já fiz
E não esqueço
De quem um dia amei
Eu desprezo
Os dias cinzentos
Eu aproveito prá sonhar
Enquanto é tempo...

Eu rasgo o couro
Com os dentes
Beijo uma flôr
Sem machucar
As minhas verdades
Eu invento sem mêdo
Eu faço de tudo
Pelos meus desejos...

"Saudações, a quem tem coragem"
Aos que tão aqui
Prá qualquer viagem
Não fique esperando
A vida passar tão rápido
A felicidade
É um estado imaginário...

Pense e dance
Pense, pense e dance.
Pense e dance
Pense bem e pense bem e dance
Pense e dance
Pense, pense e dance...


quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Elisa Lucinda, só de sacanagem.

Circula por aí um e-mail chamado "Ana Carolina ARRASA!!!" que tem, como anexo, um vídeo no qual a Ana Carolina lê um texto da poeta Elisa Lucinda. A Ana Carolina dá os devidos créditos antes de ler, felizmente, mas acho importante que fique claro que quem arrasa, de verdade, é a Elisa Lucinda. Vamos divulgar quem merece? Isso também vale para aquelas mensagens com títulos tipo: "Pablo Neruda", "Fernando Pessoa", que, quando a gente lê, vê que não tem nada a ver com a pessoa em questão, mas é uma apresentaçãozinha piegas com apenas uma frase dos ditos poetas no final que, muitas vezes, está totalmente fora de contexto.

Leiam abaixo "Só de sacanagem", de Elisa Lucinda:



Meu coração está aos pulos!

Quantas vezes minha esperança será posta à prova?

Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.

Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?

Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?

É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.

Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.

Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.

Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."

Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!